terça-feira, 20 de outubro de 2009

"Simão Preto, sécs. XVI-XVII (? Tomar - 1613 Chaul)", Casimiro Rodrigues

Simão Preto, sécs. XVI-XVII (? Tomar – 1613 Chaul )



por Casimiro Jorge Simões Rodrigues



Simão Preto morreu na cidade de Chaul a 19 de Abril de 1613.

Doente, a 11 dos mesmos mês e ano em que abandonaria o mundo dos vivos pressente a chegada da morte. Planifica então, cuidadosamente, a partida. (Testamento de Simão Preto, Arquivo municipal da Misericórdia de Tomar.)

Na cama em que jazia doente, elabora o seu testamento. Declara encontrar-se de perfeito juízo. Prepara-se. Não sabe a hora em que Deus o chamará para perto de si. Mas sente-a próxima. E se a morte é inevitável, porque não aceitá-la, em aliança?

Fora um homem de ambos os séculos.

O século XVI em que viveu e, por excelência, um tempo de viagens. Tempo desse mesmo espírito que persistiria na centúria seguinte. Quando o então moribundo haveria de embarcar, na felicidade da consciência, rumo à final viagem. Numa contínua peregrinação. Romaria espiritual. Igualmente comercial.

Simão Preto foi um viajante. O seu testamento, conservado na Misericórdia da vila de Tomar, de onde é natural, consiste no roteiro da sua última viagem. Nascera da união por legítimo matrimónio de Pedro Fernandes e de Maria Fernandes, a preta. Inventário de sinais registados pela sua importância. Das marcas que ficaram. Como marcos.

No seu documento final, começa por encomendar a alma a Deus, que o criou do nada. E é a sua fé Naquele que o remiu com o seu precioso sangue que lhe acalenta a esperança de Salvação.

Na hora da morte não tinha já pai nem mãe, filho ou filha, assim como nenhum outro herdeiro forçado a quem devesse, por lei, a obrigação de entregar os bens que amealhara durante uma existência que se imagina plena.

Agora que Nosso Senhor o levava para junto de si, determinava como sua última morada terrena a capela mor da Madre de Deus dos Capuchos da cidade de Chaul local onde desejava que padre guardião o enterrasse como irmão da Casa. Para tanto, rogava do dito padre a concessão do hábito - efeito para que deixava cinquenta pardaus -, acrescentando que, para além do mais, dispunha de uma bula apropriada que atestava a sua condição.

Também naquela qualidade de irmão da referida Casa, deixava aos religiosos que para sempre o deveriam acolher, cento e cinquenta pardaus. Pede que no mesmo mosteiro sejam por ele ditas cem missas.

Morrer. Mas espectacularmente. De forma socialmente adequada. Sair dos outros acompanhado por eles. Mesmo na morte, ou sobretudo nela, importa não estar só. Pelo que o número dos acompanhantes não é irrelevante. Como o não é a estatura moral. Dele e deles. A sua religiosidade. A sua fé.

Pede ainda, por amor de Deus, aos Senhor Provedor e irmãos da Santa Casa da Misericórdia que, munidos da sua bandeira, acompanhem o corpo na derradeira viagem. E é para que o sigam até à tumba que lhes deixa duzentos pardaus de esmola.

Ainda à mesma Misericórdia de Chaul resta o pedido e encargo de ficar-lhe como testamenteira. A ela competirá a arrecadação da sua “fazenda” mandando-a, por letra, a Portugal, tarefa pela qual paga oitocentos pardaus.

Pedia também ao padre vigário e demais padres beneficiados da Sé Matriz que quisessem, com a sua cruz, acompanhar aquele corpo até à sepultura pelo que deixava, em esmola, cinquenta pardaus. Oferece a dádiva acostumada para que lhe digam seis ofícios e cinquenta missas no altar do Santíssimo Sacramento a que se deverão juntar outras cinquenta repartidas por outros altares. Ficam mais cinco pardaus de esmola ao padre vigário de S. Sebastião para que o acompanhe com a sua cruz.

Um cruzado é o que cabe a cada um dos padres extravagantes que acompanharem o seu corpo. Quarenta pardaus para os padres de S. Domingos que o quiserem acompanhar à sepultura, esperando que fosse cumprido o seu pedido para que, no dito mosteiro, se dissessem cem missas com a esmola costumeira. O mesmo quantitativo era entregue ao padre guardião de S. Francisco e outros religiosos que o quisessem acompanhar e satisfazer o requisito que consistia em cumprir cem missas rezadas no seu mosteiro. Idêntico pedido, na mesma forma, é feito ao Padre Prior de Nossa Senhora da Graça e demais padres que o acompanhar quisessem, com idêntica obrigação de cem missas em seu mosteiro, cinquenta no altar de S. Nicolau e as outras repartidas pelos diversos altares existentes, acompanhadas da esmola acostumada.

Um testamento é um contrato. Antecipação de morte. O seu responsável primeiro preocupa-se com a vida que espera para depois do falecimento. Os que o lerem, por vezes muitos anos depois, esperam encontrar antes os traços da tal outra vida que existiu previamente àquela morte. E que vidas terá experimentado Simão Preto! Sobretudo para lá do que ficou registado nestes papéis finais. Que percurso foi o da sua elevação económica e social. Que experiências! Viagens. Culturas. Exotismos...

Mas a circunstância de se esperar o afastamento último do mundo dos vivos não significa que desapareça a preocupação com os que ficam. Os que se conheceram. Os que participaram, muitas vezes sem o suspeitar, na construção do “eu” que fomos nós. Assim, o dotador expressa a vontade de, entre os seus mais pobres parentes de Portugal - não sem antes, claro, exercer a prévia e segura precaução de confirmar parentescos - sejam repartidos mil e quinhentos pardaus, querendo que este dinheiro vá com o mais que a Misericórdia há-de tomar e cuja repartição e administração está a cargo desta Casa como sua legítima e institucional testamenteira.

Morrer é, de igual modo, reviver nos que permanecem e ficam. É renascer-lhes nas almas ainda presas de vida terrena. Nas suas memórias. E a memória é tanto mais perene quanto o permitirem “os cabedais”. A morte aparentemente igualitária será, dessa forma, vencida ainda uma outra vez e de uma outra maneira. Não permitirá o dinheiro que, neste caso, e com o soçobrar do corpo, seja igualitáriamente arrumada a recordação desta nova alma na “prateleira” dos anónimos defuntos. Dos que povoaram a terra desde o seu começo, sem pretensão de nome que perdurásse. A alma liberta-se de um corpo que foi conhecido, viveu, triunfou. E acumulou.

Juntou o suficiente para que essa memória seja também de algum modo, monumental. Na freguesia de Sª Mª do Olival manda que se faça uma capela, administrada pela Misericórdia de Tomar, para a qual deixa mil cruzados.

Uma vez cumpridos todos os seus legados, ordena que do remanescente de seu fato sejam, por sua expressa vontade, enviados por letra para Portugal e para a Santa Misericórdia de Tomar, os mil pardaus que estipulou, com o amor e brevidade que puder ser.

Depois de cumpridas todas as obrigações financeiras inerentes aos desejos que agora expressa, quer que se faça ou merque uma capela das que estão feitas em Santa Maria do Olival, e que se ordene com seus ornamentos, lâmpada, castiçais, galhetas e tribolo, tudo de prata, pedindo ao provedor da Misericórdia que encarregue da mesma capela o seu parente mais chegado. Este deverá assegurar, por sua vez, que é dita uma missa em cada dia pela sua alma e pela dos seus defuntos e, não havendo parente seu, deverão o provedor e irmãos apresentar um capelão suficiente que lhes prazer, pagando-lhe duzentos mil reais em cada ano. Com o que sobrar deste rendimento deverão casar orfãs que sejam parentes do defunto previsível e, caso as não haja, que se proceda à repartição do quantitativo pelos pobres da sua terra. E ao padre António Fernandes serão dados sessenta patacões, continua estipulando o documento.

Feliz o que morre assegurando algo para os seus. Mesmo que os não conheça. Que seja abençoado até ao dia da sua própria morte e mesmo para além dela. Honra para a família que tão bem sucedido e cumpridor filho criou para, por sua vez, dela poder, um dia, cuidar.

Outros ainda lembrarão o falecido. Por lhe lembrarem a ele. Apenas. Nesta hora derradeira recorda-se o que agora assim finda, de uma moça casta e china, por nome Filipa, que deixa forra e a quem entrega a esmola de cinquenta pardaus para o seu casamento, mandando que não bulam com o seu caixão nem com o seu fato, nem lhe busquem seu caixão, por o ter bem servido. A uma outra moça Ana Casta que bem o serviu, deixa-a também forra juntando-lhe o alívio de vinte pardaus em esmola para o seu casamento, mandando igualmente que não bulam com o seu caixão nem com o seu fato, nem busquem o seu caixão por o ter bem servido. Forrava ainda outra moça, Francisca Casta Buquy deixando-lhe de esmola, a ela e a seu marido, Francisco Machado, vinte pardaus.

Companhias da vida. Cativas. Preciosas. Protegidas. Não por serem poderosas ou especialmente lucrativas. Apenas por terem sido essas tão importantes quanto simples... companhias.

No seu testamento, Simão Preto deixa expressas muitas outras informações. Sobretudo dando conta de dinheiros que lhe são devidos. Bastante impressionantes os quantitativos. Entre eles aparecem dívidas de poderosos. Soberanos. Dignidades locais. Um desfilar de contabilidades que representam balanços de contas do prestígio de um homem que ganhou. Até onde um homem pode ganhar.

Outros tomarenses experimentaram destinos diferentes numa diáspora semelhante. Por exemplo na guerra. Tal é o caso de Fernão Jácome, de Tomar, que se encontra entre a milícia que deverá defender a fortaleza de S. Miguel, de que é alcaide-mor, em Socotorá (João de Barros, Décadas da Ásia, Década I, Livro I, Capítulo IV, p.23.). Ou o da armada de catorze velas capitaneada por Tristão da Cunha e na qual andou, entre outros nobres, Afonso Lopes da Costa, filho de Pedro da Costa. (Existe o documento do testamento de Pedro da Costa no Arquivo municipal da Misericórdia de Tomar.), também de Tomar (João de Barros, Ob. cit., Década I, Livro I, Capítulo I, p.4.). Nesses navios navegou o dito Afonso da Costa desde a partida de Lisboa a um domingo de Ramos, 6 de Março de 1506 até vir encontrar a comum e trágica morte no mar - sem testamento, portanto - no ano de 1510, durante um violento temporal, perto de Goa (João de Barros, Ob. cit., Década II, Livro V, capítulo VIII, p. 226).

Afinal, a história de Simão Preto, não sendo uma história vulgar, é a de um dos muitos homens que nesta época viajou e experimentou. Preciosas são as informações do documento que testemunha a sua vida, redigido pouco antes do momento de abalar. Não só pelo que ele nos diz mas, de igual modo, pelo que o autor viveu e lá não estará. Demandou o longínquo Oriente. Triunfou em vida e amealhou o suficiente para, à sua maneira, da própria morte triunfar.

Testemunho pessoal de um homem do mundo. Mas também o de muitos outros que, anónimos, deixaram o seu testamento invisivelmente inscrito na imensa crónica colectiva dos séculos das viagens impossíveis.



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