sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Resumo de comunicação ao III Curso de Literaturas Africanas (sem anexos e fotografias)

UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE


FACULDADE DE LETRAS


DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS


III CURSO DE LITERATURAS AFRICANAS






“António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular...
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só appellido.

Até ahi está bem.
O que não faz sentido.
É o sentido que tudo isto tem.
(...)”
Fernando Pessoa, 29/03/1935


“Instituições do Estado Novo”



Casimiro Jorge Simões Rodrigues
Leitor Instituto Camões
Universidade Eduardo Mondlane
Outubro de 1997



«Sim, é o Estado Novo, e o povo
Ouviu, leu e assentiu.
Sim, isto é um Estado Novo
Pois é um estado de coisas
Que nunca antes se viu
... Com directrizes à arte.
Reata-se a tradição,
E juntam-se Apolo e Marte
No Teatro Nacional
Que é onde era a Inquisição.


Há portos, e o porto-maca
Onde vem doente o cais.
Sim, mas nunca ali atraca
O Paquete Portugal
Pois tem calado de mais
...

E a fé dos nossos maiores?
Forma-a impoluta o consórcio
Entre os padres e os doutores.
Casados o Erro e a Fraude
Já não pode haver divórcio.
...

Fernando Pessoa



As Instituições do Estado Novo

No quadro da colaboração neste III Curso de Literaturas Africanas solicitaram-me uma sessão versando, de uma forma geral, o funcionamento do Estado Novo.
Perante os objectivos desta sessão e a sua integração no tema do presente Curso, tentaremos traçar, de forma muito sintética e esquemática, os parâmetros nucleares de funcionamento da máquina que em Portugal regeu, durante várias décadas, o viver da população. Uma máquina que explica muitos dos vectores culturais e mentais que se manifestaram e lhe corresponderam durante esse longo período.
Tratar-se-á de elaborar uma panorâmica geral. Muito geral. Por isso mesmo, também, necessáriamente simplista.


Historiografia e produção de ideias durante o Estado Novo

A História, ou uma certa concepção que dela se fazia neste período ditatorial, foi encarada com atenção. Veículo de propaganda era-lhe imposto o ajustamento aos interesses do regime.
O poder político procurou tutelar toda a produção cultural. Mas os criadores sempre trabalham. Os artistas sempre deixaram a sua marca como puderam porque a criação é própria do homem. Em todas as épocas. Em todos os domínios.
Mas o inimigo espreitava. E o pior inimigo é o que constitui o falso interesse de quem olha para um artigo, um livro, uma realização cultural, como para uma lista telefónica (reconhecendo nesta última, pelo menos, o mérito de encontrar um qualquer número para uso instantâneo).
Muito se criticou no Estado Novo a instrumentalização que da História se fazia em termos de uso pessoal imediato, normalmente visando um desiderato político - de bom tom numa inauguração, numa comemoração, num dia festivo. Essa subordinação política enquadrava a actividade histórica e do historiador, mesmo enquanto cidadão. Era uma história absolutamente modeladora, pedagógica. O produto de tal actividade, não raras vezes acrescentava algo no quadro do conhecimento - primacialmente político, factológico, na segura e reconfortante ilusão de certeza inabalável - de acordo com uma estrita moralidade que era, à partida para a investigação, já a condição de toda a produção futura.
Apesar de tudo, foram surgindo grandes colectâneas de documentação. Anotadas, comentadas, criticadas de forma mais ou menos abundante, muitas destas colecções de publicação de documentos são hoje, como sempre, obras de consulta obrigatória. Porque desbravaram meandros de arquivos públicos e particulares. Resultando, em muitos casos, de filantrópica e empenhada actividade de eruditos que muitas das vezes, a suas próprias expensas, ficaram ligados à transcrição dessa base do conhecimento das sociedades que é o documento escrito.
Não deixaram também de aparecer variados estudos, muitas vezes incómodos, que ficaram registados como autênticos marcos, fossem ou não do agrado dos profissionais do cerimonial oficioso. À margem da tal historiografia, digamos, oficial, o arrojo de outras concepções nascia e vivia deparando com mais ou menos dificuldades. As mesmas com que se deparava, de uma forma geral, a produção de ideias.
A História é, em Portugal, devedora a todos estes homens. Foram eles que contruiram amplos conjuntos de documentação de épocas diversas. Permitiam, desta forma, uma primeira abordagem a documentação de cartórios de ordens religiosas, colecções particulares de famílias, fundos de arquivos regionais, Torre do Tombo, entre muitos outros. À sua maneira lutaram, muitas das vezes com um rigor inexcedível de transcrição, de recolha, de leitura, sustentando combate paciente e continuado contra as deficiências de organização dos arquivos, a pobreza de condições materiais de muitas das instituições depositárias de registos camarários, de instituições públicas e particulares. Trazendo à luz informações banais ou extraordinárias de tombos de propriedades, registos paroquiais, processos inquisitoriais, fundos das misericórdias.


Tempo e mudança

Os homens mudam. A História regista a mudança. Fixa o conjunto das transformações que marcaram o relacionamento entre pessoas, entre povos. Mais importante que a saudação de glórias passadas é o estudo e análise dos factos procurando compor as verdades nos seus alinhamentos possíveis.
É lícito pensar que certas barreiras - porque há muito superadas - já o não são. Venceram-se monstros. O nosso ser habita hoje “casas” diferentes. Novos envólucros feitos de novas matérias. Não somos, portanto, os mesmos que alguns pretenderiam que fossemos, ou quereriam em nós ver, soçobrando ao peso de uma história que foi, em grande parte, fabricada. Não somos o produto de uma qualquer fábrica que perdeu já a sua finalidade.
E se a um louco, o primeiro passo para a cura consiste em que se lhe retire o objecto da sua loucura, também há que reconhecer que cada vez menos a realidade possibilita visões de anacronismos desencontrados. Chama-se-lhes equívocos. Parecem morar por todo o lado e saltam aos olhos, sobretudo, nas pequenas coisas. Mas a sua morada, o seu real habitáculo, é o espírito. Ali se fabricam as monstruosidades horrendas a par das mais belas ficções. Equívocos, apenas.
É inútil dizer que o passado não se poderia reescrever. Afinal, reescrevê-lo para quê? Com que objectivos? Com que missionário intuito? O passado lá está. Belo, enigmático, generoso, mas também horrível e cruel. Para os construtores de ilusões, ele pode ser simples, reconfortante, imaculado. Para o historiador ele é, no entanto, o olhar em esforço de imparcialidade. A utopia de o penetrar, não pretendendo apagá-lo, diminui-lo, esbatê-lo. Não há nada a branquear. A esquecer. A distorcer.
Nesta perspectiva, o passado é tudo o que foi, e está expresso na forma como o descrevo, descontando as limitações próprias e inerentes à construção de um discurso. Qualquer discurso. Por exemplo, o meu.
Assim sendo, que valor concedo, que discurso construo, quando quero caracterizar a contribuição dos homens que, no passado, escreveram sobre Portugal e os portugueses? Dos homens que conduziram o destino do País em que nasci e de quem a minha memória retém, ainda, algumas imagens? E como me marca a recordação que dela conservo? De que forma influi ela na minha análise dos testemunhos, dos textos, dos documentos?

São estes alguns dos pressupostos com que nos nossos dias falamos do período que ficou conhecido por Estado Novo.

As fontes do conhecimento do tempo passado

De muitos materiais se faz a História. Variados são os produtos que concorrem para a construção do edifício. Chama-se-lhes fontes. Porque delas brota o conhecimento do passado que é, ao mesmo tempo, a procura de nós próprios. Sempre que perdemos esse conhecimento, perdemo-nos a nós próprios também.
Todos os vestígios, afinal, se reportam aos homens. À matéria e à carne. Mas também ao espírito e às artes. E tão ligados estes domínios estão, que se torna difícil, senão mesmo impossível, o destrinçá-los. Porque separar rigorosamente os campos do viver, seria como decompor a vida em sectores estanques que, uma vez apartados e isolados, acabariam por perder a sua finalidade.
Não é, por isso, de estranhar que no seu apetite voraz, a memória das coisas e das pessoas que lhes conferem o sentido busque o seu alimento em todos os vestígios, saciando-se na pluralidade dos testemunhos. A começar pelas narrações dos próprios homens que, pela sua situação privilegiada de espectadores e actores, ao mesmo tempo presenciaram e representaram uma grande parte do espectáculo da vida. Por ele se interessaram. Nele se podem rever.

Imagens para uma imagem

A época a que nos referimos nesta sessão está documentada em imagens. Fotografias, cartazes, filmes e muitos outros materiais que representam, para nós, um acervo precioso e insubstituível.

Quando estudamos ou nos referimos a um dado período, é-nos exigido um esforço, tão aliciante quanto difícil, em direcção ao entendimento da sempre complexa vida durante esse outro tempo. Se não devemos nem podemos despojar-nos em absoluto das “roupagens” com que vivemos estes nossos tempos e estas nossas preocupações diárias, é-nos exigida, apesar disso, a compreensão de uma realidade marcada por diferenças fundamentais relativamente à que conhecemos hoje em dia. Para este aspecto, muito concorre a imagem, que nos convida a recuar no tempo observando a actuação de personangens representando cenas e protagonizando acontecimentos. Tudo de uma forma que nenhum discurso escrito ou oral pode substituir.



Instituições e poder

Considerando as instituições enquanto instrumentos de captura do poder, podemos nelas reconhecer, antes de mais, as características de uma vontade política que as norteia - desde a sua criação e estabelecimento, até aos seus modos de funcionamento e aos objectivos, mais ou menos explícitos, mais ou menos transparentes, que pretendem atingir.

Estes organismos ou formas de organização social, normalmente apoiados numa base jurídica ou para ela tendendo, marcam a vida dos que os compõem. Cada instituição com as suas normas, o seu funcionamento, os seus valores desempenha um papel determinado numa dada sociedade, nela subsistindo, marcando-a. Reproduzindo valores, ideias, princípios.

O Estado Novo foi um longo período que se traduziu, para Portugal, numa época em que são patentes vários desajustamentos perante o mundo de então. Atrasos, anacronismos, cristalização de estruturas económicas e sociais, mas também dificuldades nos domínios cultural e mental.

As marcas deixadas por este periodo, seriam dificilmente ultrapassadas e condicionariam as políticas que seriam adoptadas, após a revolução de 25 de Abril de 1974, nos diversos domínios da sociedade portuguesa.

Num país que ao longo da sua história foi obrigado a conviver com os mecanismos da Inquisição, submeter-se aos rigores do Índex, criar um pendor sebastianista no modo como procurava soluções para os prolemas que o afligiam, a figura de António de Oliveira Salazar surge como um desenlace “lógico” das dificuldades experimentadas pelos excessos generosos mas muitas vezes demagógicos, bloqueadores, desse período de liberdade que ficou conhecido como a I República.

Compreender os mecanismos de funcionamento do Estado Novo significa ainda entender as características específicas da história de um país que é Portugal. Passa por reconhecer o que foram alguns dos seus atrasos, permanências, atavismos.

Mas a história do Estado Novo é também a das resistências que ele criou. A das lutas dos que se lhe opuseram. A da incapacidade de um sistema totalitário para lidar com as diferenças. Desde logo nas concepções políticas, mas também nos costumes, nas práticas quotidianas, em suma, na própria vida.



«Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do dedo sobre a nossa hora. Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
Oh! maldição do tempo em que vivemos
Sepultura de grades cinzeladas
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!»

Miguel Torga



O começo

A 28 de Maio de 1926 instaurava-se em Portugal a ditadura militar.
Implantada com o objectivo de terminar com as «desordens» da Iª Repúlica começou por confrontar-se com a problemática necessidade de assegurar governos estáveis. Tarefa a que não é estranha a contradição entre o objectivo primeiro do movimento e que consistia na tentativa de disciplinar a vida política portuguesa, por um lado e, por outro, a composição heterogénea e os interesses diversos dos que animaram o golpe.

Ascensão de Salazar e do salazarismo

o governo de 1928 designado pelo General Carmona, como Presidente da República, Salazar foi escolhido para assegurar a pasta das finanças. Significativamente, o ministro exige, desde logo, o controlo sobre os orçamentos dos outros ministérios. Esta medida visando as despesas dos vários sectores do governo permitirá que se atinja um saldo positivo no orçamento de 1928/29. Será este um trunfo decisivo para Salazar. Pelo carácter praticamente inédito da situação, o ministro das finanças contabiliza os proventos de um sucesso que lhe rende enorme prestígio resultante daquilo que foi considerado um autêntico “milagre” económico.

A chefia do novo governo constituído em 1932 representa o reconhecimento desse prestígio conseguido por Salazar.

Alicerces do Estado Novo

Durante o ano de 1930 são edificados os fundamentos do longo regime que ficaria conhecido por Estado Novo e que vigoraria até 25 de Abril de 1975.
A legislação sucede-se. Logo em 1930 ganham forma a União Nacional e o Acto Colonial. Posteriormente surge a Constituição de 1933, importante pilar do regime nascente. Ainda naquele ano junta-se-lhe o Estatuto Nacional do Trabalho. As bases do sistema iam tomando forma e para elas concorreria, em 1936, a criação da Legião e da Mocidade Portuguesa.

Os Princípios

Tomando o poder após um período de intensa instabilidade política, Salazar obtinha em seu favor o desejo de estabilidade manifestado por variados sectores da sociedade portuguesa. Outros, por seu lado, procuravam obter influência política no quadro do novo panorama político. O ditador a todos disciplinará. Jogando de forma a anular todas as forças que de uma ou de outra maneira se afigurem ameaçadoras para o projecto que pretendia implementar na sociedade portuguesa.
Podemos caracterizar esse projecto, em primeira instância, por aquilo que não pretende. Por tudo o que rejeita ou a que se opõe.
Recusa, desde logo, o parlamentarismo baseando-se nos aspectos negativos de que se revestiu o jogo parlamentar experimentado no período anterior. Pelas mesmas razões transparecerá essa aversão aos partidos políticos apontados como paradigma da divisão e que coabita com a exclusão da ideia de democracia negando qualquer valor ao conceito de liberdade. Este conceito era, agora, relegado para fora do sistema político. Num quadro deste tipo importava ainda desvalorizar princípios como o da soberania popular.
Opunha-se ainda o novo regime a certas ideias e “modas” que se manifestavam no exterior com intensidade variável consoante os países e as regiões. Nesta linha se inscreve a rejeição do liberalismo que significou a subalternização do interesse individual que não é reconhecido enquanto fonte de soberania. Esta última deve residir, não no indivíduo mas na Nação, nesse “todo orgânico” que representa o interesse de todos, diluindo-os, literalmente.
Mas se é rejeitado o modelo liberal, frontal oposição é empreendida face ao marxismo. O conceito de luta de classes materializando uma visão conflitual na vida das sociedades constitui uma ideia ferozmente combatida pelo Estado Novo. À “divisão” marxista contrapõe-se a “unidade” da Nação.
A União Nacional representa o monolitismo da vida política. Aí impera o princípio da conjugação de todos, da anulação da diferença, da tendência para a unanimidade. Unanimidade quanto a ideias, de deputados, de opiniões. Admiti-la e estruturá-la corresponde ainda à rejeição da diferença sob a forma de partidos, sociedades ou quaisquer outros agrupamentos distintos quanto às suas concepções.
Já o espírito corporativo apresenta-se como a expressão da harmonia: de classes, grupos, interesses. O mesmo espírito que norteia a legislação conhecida por Estatuto do Trabalho Nacional a quem os assuntos laborais eram submetidos eliminado-se, como que por magia, a conflitualidade. Tudo sob um Estado fortemente dirigista e paternal que assegura a paz no trabalho, no estabelecimento do salário, garantindo a inexistência de greve, a salvaguarda da propriedade e ainda arbitrando pacificamente os diversos interesses sociais.
O Estado invade todas as esferas da vida pública e privada. A pretexto da ordem tudo é dirigido de forma autoritária. A começar pela vida política e pelo funcionamento das instituições em que o poder legislativo é sufocado pelo executivo e em que os orgãos institucionais têm por primeira obrigação reflectir a vontade do governo dominado por António de Oliveira Salazar. A esta lógica se submetem os próprios e sucessivos Presidentes da República que ostentam, apenas em fachada, a capacidade de nomear o Presidente de Conselho de Ministros. Na realidade é ele que os escolhe e “elege”, previamente a qualquer eleição, para o cargo que deverão ocupar.


Influências e originalidades

Salazar pretendera transmitir a ideia de que o regime era inovador perante o panorama internacional assumindo-se, em alternativa, aos modelos conhecidos no mundo de então.
Salazar pretendia-se original, mas como ignorar as semelhanças evidentes com o modelo fascista italiano posto em prática por Mussolini e seus seguidores. Como não descortinar, para lá de uma diferença de estilo, de uma imagem discreta, de um certo gosto pela solidão, os paralelismos vários: no partido único, no corporativismo, na estrutura repressiva, na censura às actividades intelectuais, nas polícias políticas, nas organizações milicianas, no controlo da sociedade civil, na instrumentalização do ensino, nas directrizes à arte e à cultura?
Negar as semelhanças apesar das diferenças seria negar o inegável, seria como justificar o injustificável.
Parte da originalidade invocada por Salazar residia no carácter conservador do regime. Um conservadorismo que buscava na tradição as especificidades do povo português, as características da “forma de ser” pretensamente específica dos portugueses. É toda uma forma de encarar um povo destacando-lhe e atriuindo-lhe virtudes e defeitos, no processo de formação do modelo e que permitia a construção de todo um referencial, independentemente da sua maior ou menor proximidade ao real. São estes modelos que legitimam a “fabricação” de ideias como a que pretendia que o funcionamento democrático não era adequado ao povo português.

A criação da trilogia “Deus, Pátria, Família” cristaliza algumas das virtudes cardeais a preservar; encara-as como linhas de rumo no viver. A essas “fontes de beatitude” pretensamente características da “alma lusitana” juntar-se-iam outros princípios e qualidades que, ao mesmo tempo que modelavam o homem português, o enclausuravam também. Prendiam-no numa plêiade de virtudes e qualidades simples e singelas que, uma vez entretecidas formavam as malhas de uma apertada rede que era, afinal, a dos limites impostos ao próprio “homem português”. A esse homem se dirigem outras ideias firmemente traçadas e defendidas, tais como a de Autoridade, Hierarquia, Paz social, Austeridade, entre outras. Em suma, era toda uma Moralidade que amarrava o “homem português” a uma imagem que sobre ele fora criada para, dessa forma, o aprisionar.

No quadro do respeito pelas tradições nacionais procede-se à defesa do que é considerado como específica e genuinamente português. A vida agrícola, os campos, cenários privilegiados por proporcionarem “formas de ser” de uma vida de calma e paz. A ruralidade é a alternativa ao mundo desordenado da cidade. Já que a cidade é terreno propício à «desordem».

Um outro capítulo da história do estado Novo é o que se debruça sobre o estatuto da mulher. Uma mulher menorizada na medida em que lhe é imposta uma função passiva nos diversos domínios da sua actuação. A «dona de casa», a «mãe», a docilidade na sujeição ao marido representam uns quantos papéis sociais que remetem o sexo feminino para o universo limitado e estreito da submissa companheira. As organizações de mulheres assumem-se, institucionalmente, como a expressão das virtudes próprias da mulher portuguesa.

Acrescentemos que num panorama em que o conceito de família é fundante e entendido enquanto base da estruturação política e social, à mulher compete um lugar bem determinado na ordem hierárquica da célula familiar dotada, por sua vez, de uma vida e moralidade específicas.
Os princípios salazaristas apresentam-se com a força de autênticos dogmas. São verdades inquestionáveis para ser seguidas sem que houvesse lugar a dúvida.
Neste contexto, o catolicismo ocupará, progressivamente, um maior lugar junto da governação. Esta espera, por seu lado, que a aliança com a religião lhe possa conferir, enquanto poder, uma maior estabilidade. Salazar, ele próprio, militara antes da chegada ao poder, no terreno da arrumação ideológica das organizações católicas debatendo o tipo de intervenção política a adoptar.
Independentemente do apuramento quanto ao grau de intervenção de uma influência de sectores católicos nas primeiras décadas dos governos do Estado Novo e na materialização de uma parte da sua projecção política é inegável que o regime vai dispensando uma cada vez maior protecção àquela religião. Apoiando-se e apropriando-se de certos princípios expressos na doutrina católica o sistema político não enjeita a possibilidade de deles beneficiar tendo em vista o reforço da sua autoridade. Não é de estranhar que se valorize a obediência, acima de tudo, culminando na década de 50 com a sua consagração constitucional como religião da Nação Portuguesa.

Lembramos também o ensino. A escola. Essa modeladora de indivíduos. O poder usa-a consciente da utilidade com que se inculcam valores que permitem posterior e pragmaticamente o uso e domínio dos cidadãos. A disciplina, ideia fundamental a transmitir e o patriotismo fundam-se com o conceito de história dominante que exalta os mitos da Nação inscrevendo a figura de Salazar no cenário da perfeição dos exemplos, das verdades absolutas, dogmáticas e de poder inquestionável. Ao associar a figura de Salazar a outras personagens mitificadas e respeitosamante intocáveis da história portuguesa, o poder político queria-se, ele próprio, intocável.
Quanto ao mundo do espectáculo, avançando pelo estrangeiro, a atitude é de desconfiança e repulsa. Particularmente a produção americana horroriza a estética defendida pelo poder político português como, de resto, de uma forma geral o assusta tudo o que é estranho, o que se não controla.
Instrumentaliza-se o fado, canção popular, assim como o futebol, mas também a arte e a arquitectura que busca com rigor as linhas paradigmáticas do que se chama a “casa portuguesa”. Directivas para a literatura. Livros proibidos. Linhas de gosto estabelecidas. E a censura. Para tudo.

Tutela ditatorial, tutela colonial

Nas colónias vive-se uma situação de dupla tutela. As aspirações autonomistas das forças sociais e culturais esbarram com o obstáculo constituído pelas características de um regime autoritário, por um lado, e pela tutela de dominação colonial, por outro. O Acto Colonial de 1930 traça os vectores da política salazarista quanto aos territórios ultramarinos. Trata-se de um reforço do controlo metropolitano acompanhado de uma ideologia que propagandeia o que entende dever ser a “missão histórica” portuguesa.

À medida que o tempo avançava, foram-se extremando as intrasigências do regime, por um lado, e as reivindicações de libertação das colónias, por outro. Já no início da década de 60, nas diversas colónias, vários movimentos de libertação enveredam pela luta armada. A cronologia das guerras coloniais apresenta Angola, em 1961, onde se formaram a FNLA (Frente Nacional para a Libertação de Angola), liderada por Holden Roberto; o MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola), liderado por Agostinho Neto; a UNITA (União para a Independência Total de Angola), com Jonas Savimbi. Na Guiné-Bissau a luta começa em 1963, com o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) e Amilcar Cabral. Também em Moçambique, a mesma luta, no ano de 1964. Aí actua a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) liderada por Eduardo Mondlane e, depois, por Samora Machel.

A Guerra Colonial foi um importante factor de desgaste do regime já que a intransigência de Salazar, primeiro, e o insucesso de Marcelo Caetano na obrigação de encontrar soluções para a situação que se vivia, isolavam internacionalmente Portugal e provocavam o descontentamento no plano interno perante o envio massivo de soldados para as zonas de combate.



«Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio - é tudo o que tem
quem vive na servidão Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas) E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
eo vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas Vi florir os verdes ramos
reitos e ao céu voltados.
E a quem gota de ter amos
vi sempre os ombros curvados Há quem te queira ignorada
fale pátria em teu nome.

Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.
Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles para quem eu escrevo
Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz. E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo. E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira dum rio triste
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que eu morro por meu país Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
Mas tem sempre de ficar Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo. Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre, Trova do vento que passa



As excepções

Num mundo amordaçado em que a população é compelida à obediência, em que a moral instituída visa a máxima eficácia no controlo dos cidadãos, onde a participação política livre é uma miragem e em que todos os domínios da vida pública são objecto de uma encenação permanente, num tal mundo diziamos, torna-se difícil a reacção frontal. Como fugir às censuras; à que se encontra consagrada sob a forma de legislação mas, igualmente, à censura pública, quotidiana? Como escapar às teias que envolvem os mais pequenos gestos numa permanente vigilância?

E, no entanto, há os que resistem. Desde logo, os que conheceram prisões, violências de tortura, a própria morte. Mas também os que por não se identificarem com a estreiteza da vida nacional abandonam o país e enfrentam, numa diversidade de situações, países, locais, a experiência do exílio. Nesta situação muitos se inscreveram. Desde trabalhadores a intelectuais e artistas. De proveniência social diversa.

Sangria humana que mais uma vez atingia o país neste tempos de novas «inquisições». A ela se juntava, ainda que por razões de motivação económica, um número elevado de portugueses que encaravam a emigração como saída para a miséria. Desfilavam num palco em que ironicamente se fariam ouvir, durante décadas, os elogios e relações cinicamente estabelecidos entre esta nova diáspora e as outras de anteriores épocas históricas, de outros tempos e outras motivações.

Esqueciam-se os “espíritos esclarecidos” de lembrar os custos das perseguições ideológicas, da repressão das diferenças, da marginalização do espírito. Monolitismos esclerosados em impossíveis «debates» na forma de monólogo que foram gerando dificuldades de modernização tanto económica e social como política e cultural.

Resistiram os que se agruparam em partidos proíbidos, nas clandestinidades da vida de todos os dias. Certos homens e mulheres buscaram nos caminhos de uma arte e cultura não oficial os últimos redutos da liberdade. Escritores, jornalistas, músicos, artistas. Resistiram todos os que pela acção, em maior ou menor grau entenderam provar que por maior que seja a máquina repressiva é no espírito que continuará a residir, não obstante as “políticas do espírito” de todas as épocas, a capacidade de ser livre que é como quem diz: de viver.





Casimiro Jorge Simões Rodrigues

Leitor Instituto Camões

Universidade Eduardo Mondlane

Outubro de 1997

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