Descolonização.
Acabei de sentar-me numa cadeira do restaurante da Costa do Sol. Só houve tempo para pedir dois whisquies. Estendo as pernas e olho as palmeiras e barraquinhas de venda de bebidas. Espero a minha companhia que se levantou pouco antes para fazer aquilo que se faz nas casas de banho dos restaurantes, logo à chegada, em dias de muito calor e humidade.
Diante dos meus olhos, como num ecran gigante, o mar turvo do Índico.
Mais à frente. Lá longe, lá, lá...uma ilha.
Os corpos na praia são esmagadoramente negros. Agitados. Mexem-se correm, luzem na água.
Vieram em carros, carrinhas, camionetas velhas que compõem os cenários para que desfilem, brilhantes, alguns BMWs, Mercedes, máquinas luminosas cuidadosamente polidas. São as cores do espectáculo. Os chapas descarregam multidões, paulatinamente. Interminavelmente.
São assim as tardes de domingo na Costa do Sol. Festas de liberdade. O gozo do Verão. Da praia. Festa popular regada a cerveja nacional.
Chega um velho carro cor de vermelho e ferrugem. A música do rádio vem alta. Muito. Como se fosse para se ouvir cá fora, mais do que lá dentro. Pára bem à minha frente ali a alguns metros.
Ao fundo, o Índico. A porta do condutor, uma vez saídos os cinco ou seis passageiros, em equilíbrio de homens e mulheres, permanece incompreensivelmente aberta. A música não pára. Reconheço temas de sucesso do reportório local. Essa perturbante música africana que transporta. Bem para lá, lá…
É então que homens e mulheres, logo de seguida e mesmo ali na rua, começam a dançar junto à porta que permanecia aberta. Mexo-me na cadeira ao som da música irresistível. Encoraja-me também ao movimento a visão daqueles corpos estreita e habilmente agarrados no dançar. Com o Índico ali bem perto. E em fundo.
De todas as direcções surge mais gente. Jovens e velhos. Remexo-me ao ver que dançam e dançam em coerência perfeita com a música toda deles e agora também minha. Tudo numa estranha e espontânea arrumação. Ali mesmo. Frente à porta do velho carro que continua aberta. Agarrados e sem parar nos cruzamentos de garrafas de cerveja, risos e insinuações de provocação entre os corpos generosos. Alegria.
Percebi que assim se nacionaliza o astro-rei. Com um carro cor de ferrugem e vermelho e gente que vem. Sem mais nada que cerveja e sol.
Festa de liberdade, na nova Costa do Sol, entre as margens naturalmente arruinadas. Vive-se ao som daquela música africana que sai toda por uma porta escancarada.
Para sempre. Claro.

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