EXPLICAÇÂO DAS EXPLICAÇÕES
Sempre que se reflecte sobre o sistema de ensino, levantam-se muitas dúvidas, analisam-se muitos problemas, tratam-se muitos aspectos de natureza pedagógica, quantas vezes, até, inventam-se histórias. Mas, e estranhamente, raras vezes se aborda esse estranho e vasto fenómeno que é o do «mercado das explicações».
É, no entanto, esse vigoroso testemunho vivo das razões de Adam Smith que se encontra por detrás de muitas guerras entre explicadores, de muitas notas em recursos de protesto nos finais de ano, de infinitas maledicências sem escrúpulo de quem programa rendimentos certos à custa das deficiências do sistema.
E que sistema de ensino é este, afinal, que atira muitos dos seus alunos para o mais desigual mercado, para esse supremo aferidor da mais básica diferenciação económica que é o recurso aos explicadores - tornado obrigatório à força do hábito, do comodismo, da incerteza. É que as “aulas” extra não saem baratas. Tanto mais que é bem diferente a possibilidade das carteiras que as suportam.
O que está em causa, afinal, mais não é que o facto de, nos programas ministeriais, as matérias não serem apreendidas, de forma a ser considerado normal o recurso aos expedientes não tributados que alimentam os orçamentos invisiveis, positivos, para uns, negativos, para outros.
Assunto a pensar. Sem demagogias.
Longe vão os tempos em que muitos de nós (quase todos?) iamos conseguindo fazer os nossos respectivos cursos médios, intermédios, mais ou menos superiores, sem o recurso a esse instrumento mágico que dá pelo nome de “explicações”. Tudo mudou. Mesmo alunos muito bons, de inquestionáveis capacidades, oriundos de famílias de satisfatórias condições económicas, enfrentam ao longo do seu percurso escolar o derradeiro momento em que se lhes coloca o dilema: não será melhor ter umas explicações?
E é difícil encontrar as causas do fenómeno: Extraordinária complexidade das matérias leccionadas? Prevenção para as dificuldades previstas nas futuras aulas plenárias de certas universidades? Dificuldades “pós-positivas”? Angústias ante universitárias? Modas depressivo-tranquilizadoras? Ou casos para que se não encontram... explicações?
Seja como for, moderar o mercado das explicações não pode deixar de tornar-se uma obrigação. Sob pena de deixar cair, definitiva e inapelavelmente, em farsa total, os rudimentos dessa outra farsa parcial que se chama «ensino democrático», pelo menos se se quiser entendê-lo enquanto igualdade de circunstâncias, oportunidades. Uma espécie de um qualquer neo-liberalismo dinâmico, até teoricamente belo, mas só aplicável aos que dispuseram de dinheiro, comida, dignidade, protecção e muitos requisitos que arrtificialmente lhes foram proporcionados e sem os quais, com imensa probabilidade, se encontrariam na mais longínqua cauda dos deserdados da sorte, fortuna, selecção natural ou não ou lá o que lhe queiram chamar.
Paradoxalmente, quanto piores forem as notas de uma dada disciplina, maiores as possilidades de mercado abertas. Quanto menos o aluno entender na aula propriamente dita, melhores e maiores as possibilidades de lho explicar depois. Poderemos argumentar com a falta de bases, os conteúdos que deveriam já estar apreendidos e não o estão, as matérias que não permitem que se leccionem outras matérias, etc., etc.. Mas… a verdade…
A verdade é que, por mais que se fale na responsabilidade das famílias, muitos pais não estão, e muitos deles fatalmente jamais estarão, em condições de contribuir para colmatar certas deficiências que os seus educandos vão revelando. Existem diferenças culturais, necessidades de trabalho, dificuldades da vida. Mas o recurso à explicação apenas pode ser entendido num qualquer contexto que não pode ter a ver com a própria impossibilidade programática ou programada de não entender conteúdos que, em condições de normalidade, deveriam ser entendidos. E defino, sem a querer definir, “normalidade”: como o estado que admite diferenças de ritmo, alunos que trabalham e outros que o não fazem, empatias, aptidões e eteceteras, que baseiam, nas justiças possíveis, isso a que se chama “avaliação”.
Tudo isto, claro, explicado sem demagogias. Serenamente.
É que por este andar, um dia desses, numa estrita mas racional lógica de mercado, mais valerá (valência traduzida em correspondente tabela de preços) ao bom profissional de ensino aplicar o empenho de todo o seu esforço e formação, o seu conhecimento quanto ao funcionamento dos conselhos de turma, toda a sua habilidade na exploração das fraquezas do sistema, nessa nobre tarefa nascente que consiste na instrução de processos de recurso de notas, no final de cada terceiro final período. A preços módicos. Em promoção.
Bem vistas as coisas, e numa perspectiva de eficácia empresarial, estaremos perante uma actividade incomparavelmente mais rentável do que a tradicional e inglória tarefa a que se dedicavam os docentes do período pré-internet e que consistia em leccionar as matérias - nesses arqueológicos locais chamados salas de aula - com alunos e problemas, nesse esforço, logo à partida inútil, para fazer compreender o incompreensível.
Explicações. Explicações do inexplicável.

Sem comentários:
Enviar um comentário